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Saúde da Mulher e as perspectivas atuais da Nutrição em doenças ginecológicas

Saúde da Mulher e as perspectivas atuais da Nutrição em doenças ginecológicas

A nutrição traz forte impacto na saúde da mulher, ao longo da vida. Uma série de doenças sofre influência de fatores nutricionais, e entre elas as doenças ginecológicas.

Doenças ginecológicas são doenças dos órgãos reprodutores femininos e consideradas um problema de saúde pública e social.

Nem todas essas doenças apresentam tratamentos eficientes, por isso trabalhar com prevenção – primária e secundária – é essencial para minimizar o impacto na qualidade de vida das mulheres.

 

Nutrição e as doenças ginecológicas

O artigo que será discutido nas próximas linhas, Nutrition in Gynecological Diseases: Current Perspectives, publicado em 2021, faz uma revisão de pesquisas publicadas sobre a correlação existente entre nutrientes e suplementos alimentares nas doenças ginecológicas, como:

  • infertilidade
  • síndrome dos ovários policísticos
  • miomas uterinos
  • endometriose
  • dismenorreia
  • infecções
  • e cânceres ginecológicos

 

Infertilidade e fatores nutricionais

Estilo de vida e fatores nutricionais demonstraram ser elementos importantes da função reprodutiva normal, que afeta de 8 a 16% dos casais em idade reprodutiva no mundo.

Nos últimos 10 anos houve um considerável avanço nas pesquisas entre dieta e fertilidade, estudando além do ácido fólico, dieta mediterrânea, o consumo de gorduras, vitaminas, cafeína, tabagismo, álcool e, mais recentemente, probióticos – que tem um papel promissor, mas pouco explorado e inconclusivo até o momento.

O padrão alimentar da dieta mediterrânea, rica em vegetais, frutas, grãos integrais, legumes, nozes e azeite, e com baixo consumo de carne vermelha, provou ser benéfico.

Estudos com casais em fertilização in vitro, mostraram maiores chances de gravidez quando o padrão da dieta mediterrânea é seguido, associado principalmente ao padrão de gordura proveniente do azeite.

Outros dados relacionam casos de infertilidade com distúrbios da ovulação e mostraram uma associação significativa entre a fertilidade feminina e o consumo de carboidratos de baixo índice glicêmico, ácidos graxos monoinsaturados, proteínas de origem vegetal e suplementos com ferro, folato e vitaminas.

Ao analisar o consumo de gordura, o ômega 3 é associado a melhora da infertilidade da mulher tendo como prováveis mecanismos o seu efeito na síntese de andrógenos, na sensibilidade à insulina e inflamação.

Quanto ao consumo de vitaminas, a Vitamina D não apresentou relação com infertilidade, porém baixos índices de Vitamina C, betacaroteno e Vitamina E podem influenciar o tempo de gravidez, dependendo da idade e faixas extremas de IMC.

 

Abordagem dietética no tratamento da Síndrome dos Ovários Policísticos 

A Síndrome do Ovário Policístico (SOP) é encontrada em aproximadamente 5% a 10% das mulheres com idade entre 18 e 44 anos, tornando-se uma das doenças mais comuns em mulheres em idade reprodutiva.

Embora a causa real da SOP permaneça incerta, evidências apontam para o papel de fatores ambientais, incluindo estilo de vida e hábitos alimentares, na prevenção e tratamento.

Uma das abordagens mais proeminentes no tratamento da SOP é a terapia dietética para reduzir a resistência à insulina e a disfunção reprodutiva.

Terapêutica dietética, para este caso, indica como premissa a diminuição de 5% a 10% no peso e  um plano alimentar para conter a resistência à insulina, com  diminuição da ingestão de alimentos com alto índice glicêmico e alimentos ricos em ácidos graxos, e ingestão suficiente de ômega-3, vitamina D e cromo.

 

Papel de fatores dietéticos relacionados ao desenvolvimento ou não de miomas uterinos

Os miomas uterinos são os tumores ginecológicos mais comuns e uma das principais causas de morbidade ginecológica em mulheres em idade reprodutiva.

Embora sejam benignos, podem causar uma infinidade de sintomas e resultados, incluindo dor pélvica, sangramento uterino anormal, disfunção da bexiga e até infertilidade.

A fisiopatologia exata não está completamente delineada, mas existem teorias e relatos de fatores de risco como índice de massa corporal aumentado, idade precoce da menarca, nuliparidade, deficiência de vitamina D e etnia afro-americana.

O consumo de gorduras, geralmente associado ao aumento de peso, pode impactar na qualidade de vida das mulheres proporcionando um ambiente inflamatório no organismo.

Estudos tem demonstrado que o consumo de Ômega 3, vegetais e frutas com bons teores de vitaminas, antioxidantes e fotoquímicos contribuiu para proteção contra o desenvolvimento de miomas.

 

A indicação é o consumo de vegetais e frutas vermelhas, cúrcuma, alcaçuz, soja e revesterol.

 

Alguns estudos, analisaram coortes de mulheres de diferentes etnias, como afro-americanas estudinenses, brancas estudinenses, italianas e japonesas, rendendo alguns resultados divergentes quanto ao papel da gordura no desenvolvimento de miomas, a influência do ambiente, contaminantes de alimentos e acesso a diversidade alimentar nas populações.

 

Endometriose, fatores nutricionais e qualidade de vida da mulher

A endometriose cria uma carga significativa em termos de gastos com saúde e qualidade de vida em todo o mundo.

É um distúrbio com aproximadamente 3 a 11 anos de atraso no diagnóstico, resultando na disfunção do ciclo reprodutivo em mulheres em idade reprodutiva.

A prevalência exata da endometriose não é determinada devido à falta de técnicas diagnósticas não invasivas adequadas, mas estima-se que cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva sofram de endometriose.

Além disso, sua prevalência aumenta para aproximadamente 20% a 50% em mulheres com dor pélvica ou infertilidade.

A endometriose é um distúrbio multifatorial que envolve vias genéticas e imunológicas, contração do músculo liso e inflamação, além de fatores ambientais, incluindo hábitos alimentares e componentes nutricionais.

Existem muitos estudos sobre o papel de diferentes nutrientes na endometriose, que fornecem abordagens promissoras para o controle da doença.

Parece que alimentos ricos em ômega-3, N-acetilcisteína – tanto de alimentos como alho, cebola, germe de trigo, brócolis e couve de Bruxelas, quanto a suplementação - e polifenol, além da diminuição do consumo de ácidos graxos ômega-6, podem diminuir o risco plausível de endometriose.

Portanto, a educação alimentar parece ser uma estratégia promissora para o controle da doença.

 

Papel dos nutrientes frente a infecções do trato reprodutivo feminino

A carga mundial de infecções do trato reprodutivo é uma grande e importante preocupação de saúde pública, particularmente em países em desenvolvimento.

Envolvem três conjuntos de infecções: infecções sexualmente transmissíveis (IST), infecções que surgem do crescimento excessivo de organismos geralmente presentes no trato reprodutivo e, por fim, infecções relacionadas a planos terapêuticos, incluindo aborto e inserção de dispositivos intrauterinos.

Estados nutricionais extremos, como, desnutrição e obesidade, podem aumentar a sensibilidade a doenças infecciosas e ampliar a gravidade da infecção.

A microbiota intestinal vem atraindo interesse como um mediador essencial nas complexas relações que ligam alimentos, corpo humano e doenças infecciosas.

Mulheres com uma microbiota não ideal, como exemplificado pela condição clínica de vaginose bacteriana (VB), têm comunidades microbianas vaginais baixas em Lactobacillus spp. e são colonizados por uma variedade de anaeróbios que geralmente produzem pouco ou nenhum ácido lático.

 

Os nutrientes desempenham um papel importante na alteração da diversidade do microbioma vaginal.

 

Uma dieta deficiente em vitamina A, C, D e E, cálcio, folato e betacaroteno, mas rica em gorduras e açúcar, causa infecções vaginais, como VB, que estão ligadas ao parto prematuro, aumento do risco de transmissão do HIV, aumento do risco de infecção por HPV e câncer cervical, endometrial e ovariano.

 

Dieta pode contribuir para desenvolvimento de cânceres ginecológicos?

As doenças neoplásicas são um crescente problema de saúde pública, considerando sua incidência e consequente carga de cuidados de saúde.

Em oncologia ginecológica, a utilidade da profilaxia e das estratégias de comportamento de promoção da saúde pode fluir para três resultados: eficaz, levando a efeitos ruins ou ineficaz.

A literatura estima que a dieta e os compostos nutricionais podem contribuir para aproximadamente 20 a 60% dos cânceres em todo o mundo.

Descobertas recentes mostraram que nem frutas, nem vegetais, podem ser convincentemente ou possivelmente associados ao risco de qualquer câncer.

Além disso, vitaminas e compostos minerais não reduzem o risco de câncer em populações bem nutridas.

Portanto, eles não devem ser usados para a prevenção padrão do câncer.

No entanto, componentes específicos de certas frutas e vegetais podem apresentar propriedades protetoras.

 

Em canceres de colo uterino, vários nutrientes com efeitos antioxidantes podem apresentar habilidades potentes para intervir na história natural da tumorigênese.

Vitaminas selecionadas (como vitaminas A e D) e compostos naturais (curcumina, EGCG) demonstram um efeito positivo na interrupção do processo da doença.

Já no câncer de endométrio, os dados disponíveis sobre o efeito dos compostos nutricionais na fisiopatologia são de baixa qualidade e insuficientes.

No entanto, a exploração de novos compostos dietéticos naturais, como isoflavona, quercetina, kaempferol e catequinas, na profilaxia ou tratamento desta doença é encorajada.

 

Alguns dados mostram maiores incidências de tumores de endométrio, em pacientes com sobrepeso e obesidade, porém sem casuística esclarecida.

 

O câncer de ovário, possui uma etiologia incerta e nem sempre pode ser prevenido. No entanto, alguns fatores demonstraram limitar o risco de seu desenvolvimento, por exemplo, lactação ou uso de contracepção oral combinada.

A literatura disponível sugere uma possível ligação entre câncer de ovário e hábitos alimentares inadequados.

Maior ingestão de frutas, de vegetais amarelos crus, de folhas verdes e menor consumo de carnes favoreceu significativamente a taxa de sobrevivência, enquanto um alto consumo de gorduras totais, saturadas e trans aumentava o risco de câncer de ovário.

Os autores enfatizaram que diferentes subtipos histológicos tinham diferentes suscetibilidades à gordura da dieta e forneceram um exemplo de gorduras saturadas que podem aumentar o risco geral de câncer de ovário seroso.

Estudos com o fitoestrogênio apresentaram uma tendência de redução, mas sem associações significativas.

No entanto, uma associação inversa com o consumo total de fitoestrogênios foi encontrada após ajuste para idade, raça, educação, índice de massa corporal e energia total.

Embora os dados discutidos indiquem alguma influência de compostos nutricionais no desenvolvimento e curso do câncer de ovário, há uma escassez de dados clínicos valiosos que possam ser traduzidos em medicina baseada em evidências.

Os flavonóides - quercetina, kaempferol, galangina, curcumina - parecem desempenhar o papel mais significativo.

No entanto, mais pesquisas são incentivadas a fim de explorar novos compostos como honokiol, (um lignano bifenólico natural extraído de diferentes partes da magnólia), bufalina (é um esteróide isolado do veneno de sapo) e tetrametilpirazina ((também chamada de ligustrazina, é um composto químico classificado como uma alquilpirazina encontrada em soja fermentada e grãos de cacau).

 

Distúrbios Menstruais

São dois os principais distúrbios menstruais: a menorragia (alto fluxo de sangue) e a dismenorreia (cólicas).

Para as duas situações, há condutas dietéticas.

Na menorragia, é recomendada uma dieta pobre em gordura animal e com necessidade de inclusão frequente de alimentos fonte de ferro e suplementação de vitamina A, vitamina B e vitamina C.

Já na dismenorreia, alimentos fonte de cálcio, magnésio, fibras, ômega 3 e funcho e azeite extravirgem, junto com suplementação de vitamina D, E e zinco, podem ajudar a amenizar os estímulos nervosos e as dores.

Mulheres jovens que pulam o café da manhã apresentam incidências significativamente mais altas de dismenorreia e menstruação irregular, sugerindo que a falta de refeições afeta as funções ovarianas e uterinas.

Impacto da nutrição na saúde da mulher

Ao lidar com doenças ginecológicas, fatores ambientais (ambiente, exposição a bactérias ou vírus etc.), clínicos e físicos (estado nutricional) ou sociais (educação, nível de renda, cultura etc.), influenciam o desenvolvimento destas e devem ser considerados na avaliação clínica.

A nutrição tem o impacto ambiental importante ao longo da vida na saúde da mulher.

Estudos indicam que alimentação rica em frutas, chás, vegetais, bem como diversos compostos dietéticos, podem fornecer benefícios potenciais na implementação de medidas preventivas/terapêuticas para controlar doenças ginecológicas comuns.

No entanto, essa área de pesquisa precisa de mais atenção.

E enquanto nutricionistas, sigamos fortalecendo a prevenção, por meio de incentivo à alimentação saudável, com foco em minimizar o impacto das doenças ginecológicas na qualidade de vida das mulheres.

 

Referência Bibliográfica:

Ciebiera M, et al. Nutrition in Gynecological Diseases: Current Perspectives. Nutrients. 2021; 13 (4) 1178.

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