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Influência da Microbiota intestinal e nutrição sobre a depressão em mulheres

Influência da Microbiota intestinal e nutrição sobre a depressão em mulheres

Faz alguns anos que a ciência procura elucidar a forma de funcionamento do eixo cérebro-intestino, tentando descobrir como estes órgãos se comunicam, como se afetam e se a alimentação é capaz de prevenir, ou até mesmo tratar de questões da saúde mental, como a depressão.

E então, temos uma questão: será que a microbiota intestinal pode ter algum envolvimento com a depressão?

Por isso, o estudo que trazemos hoje em discussão, avalia a Influência da microbiota intestinal e da nutrição sobre a depressão em mulheres, através de uma revisão sistemática.

 

Antes, um panorama da depressão

Em 2017, um relatório publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) trouxe dados sobre a depressão: a taxa de afetados no Brasil é de 55,8% da população.

 

É estimado que a doença afeta mais de 322 milhões de pessoas no mundo, sendo a maioria mulheres.

 

Ademais, a depressão está associada ao risco aumentado no desenvolvimento de doenças crônicas como:

  • aterosclerose
  • hipertensão
  • acidente vascular cerebral (AVC)
  • declínio cognitivo e demência
  • deficiências imunológicas 
  • distúrbios metabólicos, como a diabetes tipo 2

O que, consequentemente a torna um alvo ainda maior de atenção da saúde pública e profissionais de saúde. 

 

A função da microbiota intestinal

Composta por inúmeros microrganismos, a microbiota humana é responsável por processos como a fermentação de carboidratos complexos, biossíntese de folato, vitaminas B e K, aminoácidos, polifenóis e ácidos graxos de cadeia curta.

Além disso, ela influencia a motilidade intestinal, protege de patógenos, neutraliza drogas e carcinógenos, estimula o sistema imunológico, e é capaz de conduzir sinais para o cérebro.    

Estes sinais acontecem via atividade imunológica e via produção de citocinas pró-inflamatórias, as quais influenciam a produção de cortisol e mais alguns neurotransmissores, além dos ácidos graxos de cadeia curta.

 

Dessa forma, o intestino acaba por influenciar algumas atividades cerebrais, principalmente aquelas relacionadas à regulação do estresse no hipotálamo

 

Na mesma linha, o cérebro é capaz de influenciar as funções motoras, secretoras e sensoriais do intestino também por meio do eixo cérebro-intestino, que integra o sistema nervoso central, sistema nervoso entérico e sistema nervoso autônomo.

Sabendo que a microbiota pode ser modulada pelo consumo de probióticos, prebióticos e simbióticos, e que uma dieta rica em frutas, vegetais e fibras está associada a uma maior diversidade dos microrganismos que a compõem, é possível afirmar que a alimentação é um fator determinante da qualidade deste microbioma que influencia as atividades e comportamentos do cérebro. 

 

Características do estudo

O estudo em questão é uma revisão sistemática.

Para sua confecção foi realizado um levantamento bibliográfico pelas bases de dados SciELO, PubMed, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) (BIREME) e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências de Saúde (LILACS).

Nestas bases, foram pesquisados os seguintes descritores:

  • nutrição e microbiota
  • depressão e mulheres
  • nutrição e mulheres com depressão
  • nutrição e microbiota
  • disbiose e depressão

Os estudos selecionados foram limitados pela data de publicação nos últimos 10 anos.

Depois disso, os artigos foram lidos e avaliados de acordo com alguns critérios de qualidade e elegibilidade como:

  • informações descritas de forma adequada quanto às características dos participantes
  • condições de controle
  • medidas de resultados e principais resultados. 

Em suma, as bases de dados forneceram artigos que contemplavam os mais diversos períodos e condições da vida da mulher, indo desde aspectos fisiológicos e patológicos, como câncer de mama, até questões de violência doméstica e etnia. 

 

O estudo de revisão e suas conclusões

No geral, os estudos comprovam que os efeitos do uso de probióticos, prebióticos, simbióticos e psicobióticos (prebióticos e probióticos que estimulam o crescimento de bactérias comensais específicas, resultando em benefícios para a saúde mental) são positivos na manutenção da microbiota e, portanto, para o tratamento da depressão.

Além disso, houve a comprovação de que indivíduos sem depressão, independentemente do sexo, consomem mais frutas, verduras e legumes e menos industrializados.

Enquanto isso, o estudo de Grases et. al (2019) indicou que pessoas com depressão consumiram maiores quantidades de doces, o que pode contribuir para o aumento do estresse oxidativo. 

Por outro lado, alguns estudos afirmam que a suplementação de selênio é protetora ao estresse oxidativo e inflamação.

 

E mais, o consumo de probióticos também se mostra efetivo, uma vez que é possível identificar melhoria dos biomarcadores.

 

Em relação aos psicobióticos, o estudo de Lorenzo et. al (2017) mostrou uma redução significativa do IMC, massa gorda, síndrome do supercrescimento bacteriano, e dos escores psicopatológicos, e aumento de massa livre de gordura, em mulheres entre 20 e 65 anos que os consumiram por 3 semanas.

A ingestão prolongada de alimentos e produtos probióticos, prebióticos, psicobióticos e simbióticos pode afetar o humor e os sinais de depressão e ansiedade de modo positivo e ainda modular o eixo cérebro-intestino, alterando a atividade cerebral.

 

A deficiência de alguns nutrientes também pode influenciar no desenvolvimento da depressão.

Em um dos estudos selecionados, os autores indicam que um menor consumo de polifenóis está associado a um maior risco de depressão.

Tal indicação pode ser exemplificada a partir do chá verde, uma bebida com alto teor de compostos bioativos e que tem uma atividade antidepressiva e de modulação da microbiota intestinal.

 

Ainda, a depressão pode estar altamente associada aos níveis de B12 da mulher.

 

Em um estudo com mulheres grávidas, aquelas que tinham baixos níveis séricos da vitamina eram 3,82 vezes mais propensas ao desenvolvimento da doença, quando comparadas às que apresentavam níveis séricos normais.

Além disso, Nabavi et al. (2015) aponta que a deficiência de vitaminas do complexo B influencia de modo positivo no surgimento de doenças neuropsíquicas, uma vez que estão direta ou indiretamente envolvidas na biossíntese de epinefrina, dopamina e serotonina. 

 

Influência da microbiota intestinal e nutrição sobre a depressão em mulheres

O que esse estudo de revisão concluiu é que existe uma associação entre depressão e alterações da microbiota intestinal.

Da mesma forma, uma alimentação adequada e rica em frutas, vegetais e fibras tem efeitos benéficos tanto para a modulação do microbioma quanto para a prevenção e redução de sintomas que envolvem a saúde mental, podendo até mesmo ser parte integrante do tratamento da depressão. 

 

O eixo intestino-cérebro tem despertado cada vez mais estudos sobre seu impacto na saúde, reforçando que precisa de atenção e cuidados!


Com a discussão nesse artigo, verificamos ainda mais a importância da nutrição quando se fala na saúde mental, e na prevenção de doenças envolvidas. 

E, refletindo a respeito, como você, nutricionista, tem se preparado para o atendimento dessa demanda no consultório?

 

Referência Bibliográfica

Salomão JO. et al. Influência da microbiota intestinal e nutrição sobre a depressão em mulheres: uma revisão sistemática. Brazilian Journal of Health Review. 2021; 4 (2).

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