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Entenda o papel da nutrição na prevenção e tratamento da endometriose

Entenda o papel da nutrição na prevenção e tratamento da endometriose

A nutrição pode fazer parte da estratégia preventiva aos sintomas da endometriose, e integrar o processo terapêutico, contribuindo para melhor qualidade de vida das mulheres acometidas.

 

A endometriose é uma inflamação crônica relacionada a hormônios em mulheres em idade fértil, e sua presença pode afetar e restringir saúde física, bem-estar mental e social.

O principal sintoma é a dor crônica no abdômen, e um índice preocupante é que entre 30-50% das mulheres podem evoluir para infertilidade.

Até o momento etiologia e patogênese, ainda não são totalmente compreendidas. No entanto, o que já sabemos é que fatores imunológicos, endócrinos, genéticos e inflamatórios aparecem relacionados nos achados científicos.

As possíveis teorias sobre a patogênese da doença, resultam em processos inflamatórios das células endometriais, mas o caminho até a instalação desse processo ainda é desconhecido.

 

Doenças como diabetes tipo 2, por exemplo, tem um link entre nutrição e patogênese já pesquisado e comprovado, a endometriose não.

 

Nutrição como prevenção e estratégia terapêutica na endometriose

Uma revisão sistemática alemã, avaliou os dados de estudos publicados entre 2000 e 2018 sobre “nutrição e endometriose” para determinar a influência da nutrição como abordagem preventiva e como estratégia terapêutica.

É sobre essa revisão, e suas aplicações práticas, que vamos discutir por aqui.

 

A Nutrição como abordagem preventiva: como fazer?

O artigo de revisão Does Nutrition Affect Endometriosis?, publicado em 2021, avaliou hipótese de alguns alimentos ou nutrientes afetarem de certa forma o risco de mulheres desenvolverem endometriose, conforme listados e comentados abaixo.

 

Sobre o consumo de Vegetais e Frutas e a proteção contra endometriose

O consumo de vegetais ajuda a reduzir o risco de diversas doenças inflamatórias, conforme já sabemos. Porém, o uso de agrotóxicos prejudiciais a saúde pode induzir o desenvolvimento de endometriose.

Além disso, consumir vegetais crucíferos como brócolis, couve de Bruxelas, couve-flor, repolho, entre outros, pode levar pacientes a desconfortos, exacerbando a dor relacionada a endometriose.

Por isso, o consumo e as queixas dos pacientes com suspeita de endometriose devem ser avaliados individualmente.

Quanto às frutas, são alimentos ricos em antioxidantes, que contribuem na redução da inflamação e podem reduzir o risco de desenvolvimento de endometriose.

Não há necessidade de recomendar consumo de porções exageradas. Três porções por dia são suficientes, mas é importante considerar as frutas cítricas como sendo uma das porções, como, abacaxi, acerola, caju, laranja, limão, morango, e outras.

 

Essa escolha alimentar, incluindo frutas cítricas, parece intensificar a proteção.

 

Nutrientes antioxidantes, como vitaminas A, C, E e B, possuem notório efeito anti-inflamatório. Porém, ainda não há dados que comprovem a suplementação destes nutrientes para prevenção de endometriose.

 

A gordura desempenha algum papel quanto aos riscos ou proteção à doença?

Quando falamos em gorduras, mais importante do que a quantidade geral a ser consumida, a proporção dos tipos de gordura deve ser analisada.

Gorduras saturadas podem elevar a concentração plasmática de estradiol e aumentar o risco de doenças estrogênio dependente. O consumo diário de duas porções de carne vermelha, por exemplo, fornece um risco maior do que se o consumo for reduzido para 1 vez por semana.

Já no caso de gordura trans, encontrada normalmente em produtos ultraprocessados, a relação entre o alto consumo e o aumento do processo inflamatório do organismo é consolidado em estudos científicos.

Para endometriose, especificamente, os dados ainda são controversos, mas já aparecem recomendações sobre o consumo de ácidos graxos monoinsaturados (presentes no azeite e nozes) e poli-insaturados, como ômega 3 e ômega 6.

 

Esses ácidos graxos têm ação antioxidante e anti-inflamatória no organismo, promovendo fatores de proteção para endometriose.

 

Outros nutrientes e alimentos e seu envolvimento com a endometriose

Manter níveis adequados de Vitamina D no organismo (entre 20 a 30 ng/mL), apresentam relação de proteção ao desenvolvimento de endometriose.

Já o magnésio, deve ser recomendado ingestão através de fontes alimentares (como abacate, sementes e frutas oleaginosas). Mas caso necessário, pode entrar com suplementação, contribuindo com o fator de proteção.

Leite e produtos lácteos, como iogurte e queijos, estudos recomendaram fazer parte do plano alimentar em suas versões com baixos teores de gordura, e não ultrapassar o consumo de 3 porções por dia.

Investir em alimentos fontes de carboidrato complexo com baixo índice glicêmico ajuda a reduzir os picos de insulina, os quais podem estimular a proliferação de células do endométrio.

Alguns dos achados em estudos ainda não são tão expressivos, mas estimular o consumo de alimentos como derivados de aveia (farinha, farelo e grão), grão de bico, lentilha e cenoura tem certo grau de importância.

Quanto à soja e fitoestrogênio não há dados consistentes, mas pacientes que foram diagnosticadas com formas mais graves da endometriose apresentaram altos níveis de isoflavona na urina.  Logo, vale recomendar que o consumo seja equilibrado.

Sobre o café, tão querido e consumido, não aparecem dados de forte relação a respeito de seus efeitos, mas deve-se evitar o consumo em excesso. Isso, devido ao efeito da cafeína em aumentar a disponibilidade de estrogênio na fase folicular, e aumentar ocorrência de doenças dependentes de estrogênio. 

Pensando no consumo de álcool, este é fator de risco para doenças inflamatórias crônicas e estrogênio dependentes, afetando o sistema imunológico e processos pró-inflamatórios. Por isso o consumo regular, deve ser desestimulado.

 

Nutrição como estratégia terapêutica: como aplicar?

O uso de suplementos de ômega-3 e vitamina B tem relação com melhora da dor e redução do uso de analgésicos.

Mas é sempre importante investigar os hábitos alimentares e possíveis comportamentos que intensifiquem o consumo de alimentos pró-inflamatórios, como alimentos ricos em gordura trans, pois seriam antagonistas aos efeitos benéficos daquela suplementação.

 

A cirurgia é uma realidade nas formas graves da endometriose, e os cuidados pós procedimento incluem reposição hormonal e/ou ajuste na dieta.

Logo, o nutricionista deve estar presente nesse acompanhamento pós cirúrgico, destacando atenção ao consumo de vitaminas A, C, E, B, cálcio, magnésio, selênio, zinco, ferro, fermentos lácteos e óleo de peixe, que promovem melhora da dor e melhor qualidade de vida.

 

A potencial correlação entre dieta e desenvolvimento de endometriose é um tópico frequentemente discutido.

 

Por ser a endometriose uma doença complexa e multifatorial, cuja patogênese ainda não é totalmente compreendida, isso resulta em dificuldades em qualificar ou quantificar o efeito da dieta.

São muitos guias, fóruns e blogs na Internet, cobertura de rádio e TV, tratando do tema e emitindo recomendações.

No entanto, do ponto de vista científico, os dados ainda são insuficientes e controversos, devido aos desenhos dos estudos e baixa comparabilidade dos alimentos.

Por exemplo, o leite foi mencionado no estudo de revisão, mas seu teor de gordura, processamento, origem (agricultura orgânica ou convencional) tem um impacto no produto final e, portanto, potencialmente no seu efeito dietético. Ou seja, sua recomendação não pode ser generalizada ou engessada.

 

Os principais destaques levantados no artigo, foram:

  1. O consumo de álcool e uma dieta rica em gorduras trans demonstraram ter certo impacto sobre a ocorrência de endometriose.
  2. Os resultados dos estudos relacionados com frutas e legumes, laticínios, gorduras insaturadas, carne vermelha, fibra, produtos de soja e café não são claros.

 

O que podemos concluir sobre o papel da nutrição na prevenção e tratamento da endometriose?

Para que possamos, enfim, derivar recomendações mais concretas, precisamos de outros estudos para investigar mais a fundo a influência da nutrição na endometriose.

Fundamental dar atenção à comparabilidade dos gêneros alimentícios e condições de vida, através da realização de estudos epidemiológicos e pesquisas experimentais, para entender a influência da dieta nos diferentes estágios da patogênese da doença (proliferação, vascularização, invasão peritoneal, inflamação).

Os autores do artigo propõem que as recomendações gerais para uma alimentação equilibrada e variada estejam em consonância com as orientações locais da Sociedade de Nutrição (Alemanha), juntamente com a recomendação para cortar o consumo de álcool.

Aqui no Brasil, podemos e devemos utilizar as orientação do Guia Alimentar da População Brasileira como principal referência para orientação alimentar, tanto na prevenção quanto no tratamento da endometriose.

 

Agora que você entendeu um pouco mais sobre endometriose e como pode ajudar suas pacientes que sofrem com os sintomas, compartilhe o conteúdo com outros nutricionistas para que mais profissionais reforcem os estudos, e promovam esse suporte.

 

Referência:

Helbig M, Vesper AS, Beyer I, Fehm T. Does Nutrition Affect Endometriosis? Geburtshilfe Frauenheilkd. 2021 Feb;81(2):191-199. doi: 10.1055/a-1207-0557. Epub 2021 Feb 8. PMID: 33574623; PMCID: PMC7870287.

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