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O consumo de ácidos graxos trans e uma dieta com alto teor de sacarose podem afetar as futuras gerações?

O consumo de ácidos graxos trans e uma dieta com alto teor de sacarose podem afetar as futuras gerações?

Hoje, vamos analisar com você alguns artigos a respeito de como o consumo de ácidos graxos trans podem gerar resistência à insulina, e sobre a influência de uma dieta rica em sacarose nos parâmetros metabólicos e lipídicos, afetando gerações futuras.

 

O primeiro estudo que abordaremos trata de como Ácidos Graxos Trans (AGT) podem ser passados pelo leite materno, e gerar como consequência na vida adulta a resistência à insulina.

Publicado na Nutrition, em 2008, por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o estudo foi realizado em ratos, não em humanos.

Portanto, esses dados não podem ser usados como parâmetro para formação de diretrizes médicas, mas servem para chamar a atenção, e serem agrupados a toda uma série de conhecimentos já desenvolvidos sobre o tema.

O estudo consistiu em dividir ratas Winstar lactantes em um Grupo Controle (GC) e um Grupo Intervenção (GI). Os dois grupos receberam dieta isocalórica, isoprotéica e isolipídica, durante os 21 dias de lactação para os dois grupos.

A diferença nas dietas oferecidas estava no perfil lipídicos dos ácidos graxos:

  • a dieta do GC foi composta por 9% de óleo de soja, e
  • a do GI foi composta por 7% de óleo vegetal parcialmente hidrogenado e 2% de óleo de soja.

 

Após o desmame alguns animais foram selecionados aleatoriamente, e passaram a receber por 60 dias a dieta comercial padrão Nuvilab.

Então, foi analisado o glicogênio hepático e o conteúdo de GLUT-4 no ventrículo esquerdo.

Dessa forma, foi verificado que, apesar de GC e GI apresentarem os mesmos níveis de glicose, GI apresentou:

  • níveis mais elevados de insulina, do índice HOMA e da relação insulina/glicose;
  • níveis diminuídos de glicogênio hepático e do conteúdo de GLUT-4 no ventrículo esquerdo.

Fatores que, juntos, configuram quadro de resistência insulínica.

 

Com isso, os pesquisadores constataram que com a metodologia aplicada é possível verificar que o consumo de AGT é um fator relevante para gerar distúrbios metabólicos na fase adulta, principalmente aqueles relacionados à insulina.

 

O outro estudo que trazemos hoje, publicado em 2020 na Nutrients, trata da influência sobre os parâmetros metabólicos e lipídicos, gerados por uma dieta com altos níveis de sacarose, que podem ser levados até duas gerações a frente.

Foram selecionados ratos espontaneamente hipertensos (exatamente por serem mais sensíveis a manipulação da dieta no que se refere a mudanças nos parâmetros metabólicos e lipídicos, visto que já apresentam um perfil metabólico anormal), que chamaremos de SHR; e ratos SHR-Zbtb16 (um gene associado a Diabetes Mellitus 1 e 2).

As ratas F0 foram alimentadas com dieta normal até a 16˚ semana de vida, quando foram postas para acasalar com os machos correspondentes do seu tipo: SHR com SHR, e SHR-Zbtb16 com SHR-Zbtb16.

Assim, elas foram divididas da seguinte forma:

  • SHR Controle
  • SHR Intervenção
  • SHR-Zbtb16 Controle, e
  • SHR-Zbtb16 Intervenção

Todos os grupos foram alimentados durante a gravidez e a lactação com deita padrão (DST).

A única diferença foi que para os grupos de intervenção o carboidrato era sacarose (dieta chamada de HSD), e para o grupo controle o carboidrato era amido.

 

Quando os filhotes nasceram, agora chamados de ratas F1, foram desmamadas no vigésimo oitavo dia e seguiram recebendo dieta padrão até os 4 meses de idade, quando foram submetidas ao TOTG e postas para acasalar com irmãos machos.

Portanto, ratas controle foram acasaladas com seus irmãos ratos controle, e ratas intervenção foram acasaladas com seus irmãos ratos intervenção (detalhe que todos os ratos F1 machos foram alimentados com dieta padrão DST).

O TOTG foi realizado novamente no 10˚ dia de gestação.

Assim, durante a gravidez e lactação, as F1 foram alimentadas com dieta padrão DST.

Quando os filhotes, agora F2, nasceram, foram desmamados no 28˚ dia e foram alimentados com dieta padrão DST até os 6 meses de idade.

Ao fim do estudo, foi observado que nos machos F2 houve um aumento do peso da gordura marrom e do colesterol HDL.

 

Já num estudo complementar, um artigo de Short Communication, na Physiological Research, também de 2020, os mesmos pesquisadores, junto a outros dois colaboradores, verificaram os efeitos metabólicos dos ratos, que seriam os F1.

Desta forma, no estudo, as ratas F0 também foram divididas em controles (alimentadas com dieta padrão DST) e intervenções (alimentadas com dieta com alto teor de sacarose HSD).

Os ratos F1, até os 6 meses de idade, foram alimentados com dieta padrão, e então por 14 dias receberam dieta HSD.

Assim, foi verificado que os F1 que consumiram a dieta HSD apresentaram:

  • aumento de adiposidade;
  • diminuição da tolerância à glicose e do colesterol total;
  • aumento de triglicérides e da insulina em jejum.

 

Concluindo, os estudos deixam claro que são necessários mais estudos, principalmente com humanos, que envolvam as “janelas de desenvolvimento”,  para que possam ser formulados Guidelines com comprovações topo de pirâmide.

 

E que, portanto, possam servir de embasamento para orientações a nível populacional.

Mas, fica aqui o conhecimento, e usemos com bom senso.

 

Fontes:

OSSO, Fernanda Silveira; MOREIRA, Annie Seixas Bello; TEIXEIRA, Michelle Teixeira; PEREIRA, Renata Oliveira; CARMO, Maria das Graças Tavares do; MOURA, Aníbal Sanchez. Trans fatty acids in maternal milk lead to cardiac insulin resistance in adult offspring. Nutrition, [S.L.], v. 24, n. 7-8, p. 727-732, jul. 2008. Elsevier BV. http://dx.doi.org/10.1016/j.nut.2008.03.006.

 

ŀKOLNÍKOVÁ, Elena; ŀEDOVÁ, Lucie; ŀEDA, Ondřej. Grandmother’s Diet Matters: early life programming with sucrose influences metabolic and lipid parameters in second generation of rats. Nutrients, [S.L.], v. 12, n. 3, p. 1-16, 21 mar. 2020. MDPI AG. http://dx.doi.org/10.3390/nu12030846. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7146346/pdf/nutrients-12-00846.pdf. Acesso em: 08 jul. 2021.

 

ŀKOLNÍKOVÁ, E; ŀEDOVÁ, L; LIŁKA, F; ŀEDA, O. SHR-Zbtb16 Minimal Congenic Strain Reveals Nutrigenetic Interaction Between Zbtb16 and High-Sucrose Diet. Physiological Research, [S.L.], p. 521-527, 30 jun. 2020. Institute of Physiology of the Czech Academy of Sciences. http://dx.doi.org/10.33549/physiolres.934423. Disponível em: http://www.biomed.cas.cz/physiolres/pdf/2020/69_521.pdf. Acesso em: 07 jul. 2021.

 

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