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Você já ouviu falar em programação metabólica materna?

Você já ouviu falar em programação metabólica materna?

 

A exposição a ambientes desfavoráveis no início da nossa vida, gera o que a ciência chama de programação metabólica, ou somente programação, que nada mais é do que uma perturbação exercida no organismo, de forma a gerar consequências permanentes no futuro.

Hoje, trazemos um artigo de revisão de 2018, publicado no European Journal of Nutrition, que fala a respeito de como doenças metabólicas como diabetes mellitus tipo 2, doenças cardiovasculares e obesidade, podem ter parte da sua etiologia vinda de uma programação realizada durante o período perinatal.

 

Como Dieta e Exercício Físico influenciam na programação metabólica?

 

No artigo de revisão, os autores sugerem que a dieta adequada e a prática de exercícios físicos, também adequados e individualizados, levando em consideração o estado de saúde da mãe e do bebê, podem exercer influências benéficas na saúde da geração seguinte. 

E que, portanto, podem ser considerados como mecanismos preventivos.

Para exemplificar, os autores citaram o estudo de Hales e Barker, que mostra como o baixo peso ao nascer está relacionado futuramente ao desenvolvimento de resistência a insulina, HAS e doenças cardiovasculares.

O bebê durante a gestação, e até a mãe na pré gestação, sendo submetidos a uma dieta hipocalórica, e pobre em nutrientes, o organismo se adapta a essas condições. Seria um mecanismo de sobrevivência.

O problema é que esse processo não ocorre de forma salutar por muito tempo.

Além disso, quando se estabelece o consumo alimentar adequado, o metabolismo já está tão adaptado, até fisiologicamente, que como consequência o indivíduo desenvolve algumas patologias. Inclusive, de origem imunológica.

A maioria dos estudos utilizam modelos animais, e o déficit calórico em ratos, por exemplo, tem como resultado o mau desenvolvimento das células beta pancreáticas, trato intestinal, hiperinsulinemia, hiperfagia, obesidade e hipertensão.

Abrindo um parênteses, entenda que quando estamos falando aqui de déficit calórico, não estamos nos referindo ao déficit adequado e orientado por profissionais da saúde. Até porque, nem assim estaria adequado, visto que não se faz déficit calórico em gestação.

Mas sim, estamos falando de pessoas em vulnerabilidade social, pessoas que vivem em insegurança alimentar, e não buscaram essa situação sócioeconômica.

Porém, os problemas não ocorrem somente no déficit calórico, ocorrem também quando o valor energético total (VET) é mais elevado que o gasto energético basal (GEB).

Por isso, dizemos que o estado nutricional pré natal x desordens metabólicas se representam por um gráfico em U. Visto que as duas extremidades geram programações metabólicas indesejadas, como macrossomia, obesidade e diabetes (e perceba aí o ciclo vicioso se formando).

 

E o que diz a ciência sobre os micronutrientes?

 

Sobre a deficiência de micronutrientes, os dados na ciência muitas vezes são conflitantes e contraditórios.

Exceção para a os já conhecidos e firmados na ciência, como por exemplo: ferro e anemia; e ácido fólico e espinha bífida (meningocele e mielomeningocele), a formação e fechamento do tubo neural, e fissura palatina.

Mas, em geral, os achados seguem na direção de que a deficiência de micronutrientes gera efeitos epigenéticos, que direcionam o organismo a desenvolver uma porcentagem maior de tecido adiposo, de resistência insulínica e efeitos de um sistema antioxidante hipofuncionante.

 

A genética explica, a partir da epigenética, que o estilo de vida determina padrões diferentes de metilação do nosso DNA.

E que, por consequência, gera exposições diferentes da eucromatina, e inativações diferentes da heterocromatina.

 

Agora, onde entram os exercícios físicos nessa história toda?

 

Contrações musculares geradas pela atividade física contribuem para:

  • maior consumo energético das nossas reservas de glicogênio e de gordura corporal,
  • para a flexibilidade metabólica,
  • o aumento do número e eficiência de ação das mitocôndrias, que irão gerar um melhor aproveitamento energético, produção de irisina e de miocinas,
  • além de todo o remodelamento neural, angiogênese estimulada e aumento do fluxo sanguíneo na direção das nossas reservas de tecido adiposo.

Seus efeitos peri natais epigenéticos vão no sentido da modelação das funções hipotalâmicas, no que se refere a metabolismo e regulação do peso corporal.

E, portanto, protegendo o indivíduo para que ao crescer não desenvolva desordens como síndrome metabólica, obesidade, diabetes mellitus tipo 2 ou hipertensão.

 

Na conclusão da revisão, os autores ressaltam a necessidade de se aumentar o cabedal de conhecimentos acumulados sobre o tema, através de estudos em humanos (o que é bem complicado, pois as metodologias se chocariam com a ética).

Para que, só então, tenhamos a possibilidade de gerar orientações para mulheres grávidas, e principalmente a nível populacional.

 

Fonte:

MATHIAS, Paulo C. F.; ELMHIRI, Ghada; OLIVEIRA, Júlio C. de; DELAYRE-ORTHEZ, Carine; BARELLA, Luiz F.; TÓFOLO, Laize P.; FABRICIO, Gabriel S.; CHANGO, Abalo; ABDENNEBI-NAJAR, Latifa. Maternal diet, bioactive molecules, and exercising as reprogramming tools of metabolic programming. European Journal Of Nutrition, [S.L.], v. 53, n. 3, p. 711-722, 28 jan. 2014. Springer Science and Business Media LLC. http://dx.doi.org/10.1007/s00394-014-0654-7.

 

 

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