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Medicina do Estilo de Vida e seus pilares

Medicina do Estilo de Vida e seus pilares

A Medicina do Estilo de Vida (MEV), é uma abordagem terapêutica baseada em evidências, centralizada no paciente como um ser que dorme, que tem seus estresses, um ser que pode ter problemas e desenvolver vícios ou consumo abusivo de substâncias como álcool, que se movimenta (nem que seja para ir e voltar do ponto de ônibus quando vai e quando volta do trabalho), que se alimenta e que constrói e mantem relações interpessoais. Já citada no meio da saúde desde 1999, é hoje abordada por muitas instituições como American Heart Association, American Academy of Pediatrics, o American College of Sports Medicine, a Academy of Nutrition and Dietetics e principalmente pelo American College of Lifestyle of Medicine (ACLM), uma sociedade profissional médica criada em 2004, focada em oferecer cursos e certificações sobre MEV, atualmente com sede em Chesterville no estado de Missouri.

A MEV de forma organizacional, é baseada em 6 pilares: Nutrição, Abuso de substâncias, Sono, Relações, Exercício e Manejo do stress. Ela enxerga que para o indivíduo atingir a homeostase, ele precisa cuidar desses 6 pontos para que a sua saúde seja mantida em condições adequadas.

No pilar Nutrição é dito que a alimentação pode ser medicinal e é orientada a Whole Food Plant-Based, que é uma alimentação baseada em vegetais consumidos na sua forma integral, por serem ricos em fibras e possuírem uma alta densidade de micronutrientes. Então legumes, folhas, frutas, leguminosas, oleaginosas, sementes, cereais, flores, enfim, são todos incentivados a serem consumidos como forma majoritária nas refeição e na sua forma mais integral possível. Aqui vale deixar uma observação, que Whole Food Plant-Based não é uma alimentação necessariamente vegetariana ou vegana, ela pode sim incluir carnes, ovos e laticínios, porém, estes não devem contemplar uma porcentagem grande ou representativa do todo.

Em Exercício, eles tratam o dia a dia como o importante, incentivando atividades rotineiras como cuidar do jardim, da casa, fazer caminhadas, preferir subir escadas a usar o elevador, e o que mais a criatividade do paciente e do nutricionista permitirem. É dito que o movimento deve ser incentivado e mantido de forma regular e consistente, não lá uma vez ou outra. Aqui também vale ressaltar que nós nutricionistas não podemos prescrever exercícios físicos, porém podemos e devemos incentivar o movimento e a mudança de um estilo de vida sedentário para um ativo, assim como orientar os pacientes a procurarem profissionais educadores físicos para a realização correta e proveitosa de exercícios.

 

No pilar Manejo do Stress, é evidenciado que o stress pode ser uma resposta fisiológica positiva, que nos mantem atentos, ativos e prontos para a batalha. O problema ocorre quando essa batalha é travada 24 horas por dia ou considerada como existente nessas 24 horas, sendo que na realidade não o é. Dessa forma o stress se torna algo patológico que confere ao paciente ansiedade. E aí a situação vira uma bola de neve, pois a ansiedade gera uma atividade disfuncional do sistema imune, que gera uma propensão a uma metainflamação e daí podem vir, obesidade, depressão e uma série de problemas de saúde multifatoriais como as Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT). Nesse ponto a MEV vem para trazer o paciente a superfície do mar de esgotamento que ele está vivendo, para que ele possa enxergar o seu caso de uma posição externa e então ser possível identificar os gatilhos, as situações problemas, as possíveis soluções ou tratamentos para essas situações, maneiras de as receber, absorver e enfrentar e dentre essas ações desenvolver técnicas que o ajudem a sair dos momentos de stress ou de nem entrar neles. Isso não quer dizer que vamos prescrever meditação e yoga para todos os pacientes, pois afinal cada um é cada um e o relaxamento que a yoga traz para uns pode levar a tédio ou até irritação para outros. Aí entra a avaliação da pessoa com seus gostos, desgostos e particularidades.

Em Abuso de Substâncias, um outro pilar, a MEV é resoluta, pois as evidências científicas sobre os malefícios de substâncias viciantes como tabaco, por exemplo, já são muito bem firmadas e consolidadas pela ciência. Diante disso o caminho inclui a conquista árdua, porém possível, do parar de fumar e do controle do consumo de álcool. Nesse ponto trabalha-se não só a exclusão de hábitos maléficos a saúde, mas a inclusão de hábitos benéficos e comportamentos positivos.

O Sono, também é considerado um pilar, visto que a sua má qualidade e quantidade (em horas dormidas), gera danos ao sistema imunológico, o que de novo, faz o paciente entrar em uma bola de neve de efeitos e resultados prejudiciais em cascata. Aqui é necessário junto ao paciente se identificar como é o seu comportamento frente ao sono, qual a importância que o sono representa ao paciente, corrigir erros de conhecimento (como por exemplo, que é só eu dar uma cochilada a tarde que se resolvem as horas não dormidas da noite passada) e o ajudar de forma colaborativa a desenvolver métodos que o auxiliem a ter maiores períodos de sono, se necessário, e de melhor qualidade, levando também em conta comportamento alimentares e fatores ambientais. As vezes trazer a janta para um tempinho mais cedo e comprar um blackout para a janela do quarto já resolve muita coisa.

E o último pilar tratado são os Relacionamentos. A MEV tem plena consciência da importância das relações para a construção e manutenção das nossas emoções e, portanto, do nosso auto posicionamento na sociedade. Diante disso, o ambiente em que o paciente vive, seja sua casa, seja seu trabalho, seja a sua vida virtual, afinal hoje em dia a maior parte da população passa parte das horas dos seus dias nas redes sociais, deve ser considerado um ponto a ser observado e avaliado. Diante das percepções obtidas, ações de enfrentamento ou de resolução são desenvolvidas em conjunto, para que se aprimore a resiliência e a saúde emocional do paciente.

 

A MEV é toda uma abordagem de tratamento, de reversão ou remissão de doenças e de ações preventiva sem que na real se esteja focando na prevenção em si, e sim na qualidade de vida pela qualidade de vida. Ou seja, não se está se adotando tal ou tal atitude para se prevenir tal e tal problema de saúde, e sim porque ela vai trazer tal e tal benefício. Esse tipo de proposta da autonomia ao paciente de ao seu organismo de se cuidar, se observar, se entender e se preservar. Confere a consciência do que é se sentir bem, do que é preciso ser feito para se sentir este bem estar e do que precisa ser evitado para que não se escape dos benefícios conquistados. E como a maioria das DCNT possuem como fatores de risco, componentes ambientais, e portanto modificáveis, a MEV se mostra uma excelente ferramenta para os seus tratamentos e prevenção.

 

Obs: A ACLM mantem um site riquíssimo em conteúdo em conteúdo e suporte a profissionais, mas o que trago aqui em especial é esse link: https://www.lifestylemedicine.org/ACLM/Tools_and_Resources/Print_Resources.aspxNele você pode baixar vários materiais para trabalhar a MEV com seus pacientes de forma mais didática e infográfica.

 

Fontes:

DESALVO, Karen B.; OLSON, Richard; CASAVALE, Kellie O. Dietary guidelines for Americans. Jama, v. 315, n. 5, p. 457-458, 2016. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jama/article-abstract/2481221. Acesso em: 26 abr. 2021.

Estados Unidos da América. DIETARY GUIDELINES ADVISORY COMMITTEE et al. Dietary guidelines for Americans 2015-2020 - 8th edition. Department of Agriculture. 2015. Disponível em: https://health.gov/sites/default/files/2019-09/2015-2020_Dietary_Guidelines.pdf. Acesso em: 26 abr. 2021.

MISSOURI. AMERICAN COLLEGE OF LIFESTYLE MEDICINE. American College of Lifestyle Medicine: about. About. 2021. Disponível em: https://www.lifestylemedicine.org/ACLM/About/What_is_Lifestyle_Medicine/ACLM/About/What_is_Lifestyle_Medicine_/Lifestyle_Medicine.aspx?hkey=26f3eb6b-8294-4a63-83de-35d429c3bb88. Acesso em: 26 abr. 2021.

MISSOURI. AMERICAN COLLEGE OF LIFESTYLE MEDICINE. Print Resources. 2021. Disponível em: https://www.lifestylemedicine.org/ACLM/Tools_and_Resources/Print_Resources.aspx. Acesso em: 26 abr. 2021.

PIJL, Hanno. Lifestyle Medicine: why do we need it?. Medical Science Educator, [S.L.], v. 28, n. 1, p. 5-7, 14 nov. 2018. Springer Science and Business Media LLC. http://dx.doi.org/10.1007/s40670-018-00632-x. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6383827/pdf/40670_2018_Article_632.pdf. Acesso em: 26 abr. 2021.

RIPPE, James M. Lifestyle medicine: the health promoting power of daily habits and practices. American journal of lifestyle medicine, v. 12, n. 6, p. 499-512, 2018. Acesso em: 26 abr. 2021.

SAGNER, M.; KATZ, D.; EGGER, G.; LIANOV, L.; SCHULZ, K.-H.; BRAMAN, M.; BEHBOD, B.; PHILLIPS, E.; DYSINGER, W.; ORNISH, D.. Lifestyle medicine potential for reversing a world of chronic disease epidemics: from cell to community. International Journal Of Clinical Practice, [S.L.], v. 68, n. 11, p. 1289-1292, 27 out. 2014. Wiley. http://dx.doi.org/10.1111/ijcp.12509. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1111/ijcp.12509. Acesso em: 26 abr. 2021.

WORLD HEALTH ORGANIZATION et al. Time to deliver: report of the WHO independent high-level commission on noncommunicable diseases. 2018. Disponível em: http://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/272710/9789241514163-eng.pdf?ua=1. Acesso em: 26 abr. 2021.

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