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Crononutrição: o relógio que interage com a alimentação do adolescente

Crononutrição: o relógio que interage com a alimentação do adolescente
Academia da Nutrição
jun. 22 - 8 min de leitura
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O relógio circadiano programa ritmos diários e coordena múltiplos processos comportamentais e fisiológicos, incluindo atividade, sono e alimentação ao longo das 24h diárias. 


Esses processos rítmicos são regidos por um sistema de temporização circadiano interno e também são modulados por fatores exógenos, como o ciclo claro-escuro, demandas sociais e horários de trabalho. 

As pesquisas sobre os efeitos da duração do sono e alimentação aumentaram nos últimos anos, especialmente com a perspectiva de que o sono pode ser um fator de risco modificável para doenças crônicas não transmissíveis. 


Os componentes considerados no momento da alimentação, como rotina de refeições irregulares, número de refeições/dia e tempo real de ingestão de alimentos (ou seja, pular o café da manhã e consumir refeições tarde da noite), podem afetar os ritmos circadianos e, assim, afetar a saúde metabólica.


Nesse sentido, a crononutrição, ou seja, a interação do relógio circadiano com a ingestão de alimentos, metabolismo energético e possíveis resultados de saúde, é uma área que tem recebido atenção crescente. 


Cronotipo e adolescência

Um dos primeiros estudos epidemiológicos sobre o assunto demonstrou que pessoas que tinham uma rotina alimentar irregular apresentavam maior risco de obesidade e síndrome metabólica, apesar de consumirem menos energia do que aquelas que tinham uma rotina alimentar mais regular.


O cronotipo de um indivíduo é a preferência e propensão a acordar e dormir em horários específicos durante o dia (período de 24 horas) e, na adolescência, ele reflete as consequências comportamentais e manifestações dos ritmos circadianos. 


A adolescência é um período particularmente vulnerável para o surgimento de padrões de sono irregulares. 


É bem reconhecido que esses padrões comportamentais cronotípicos estão associados à variabilidade individual dos ritmos circadianos de parâmetros fisiológicos, por exemplo, secreção hormonal e temperatura corporal, mas também a comportamentos relacionados à saúde, como ingestão alimentar e atividade física. 

Os cronotipos matutinos e vespertinos referem-se às diferenças individuais nas preferências diurnas, padrão sono-vigília para atividade e estado de alerta pela manhã e à noite, respectivamente.

Tem sido sugerido que há uma tendência para o comportamento do tipo noturno (tarde) em vez do comportamento do tipo matutino (manhã) no final da adolescência. 


Enquanto o tipo vespertino é mais frequentemente associado a comportamentos prejudiciais à saúde em adolescentes, o tipo matutino tende a estar associado a comportamentos que melhoram a saúde, incluindo atividade física. 

Os tipos matutinos acordam mais cedo e apresentam duração de sono menos variável em comparação com os tipos vespertinos. Os tipos vespertinos apresentam preferência por dormir mais tarde, e eles, em comparação com os matutinos, tendem a ter pior qualidade da dieta e ingestão de nutrientes. 


Em resumo, nesta população, o sono influencia o bem-estar físico, alterações biológicas e psicológicas na maturação cerebral na puberdade.


Crononutrição e os adolescentes: o que temos sobre eles?


O objetivo do presente estudo foi investigar a qualidade da dieta, a ingestão de nutrientes e os comportamentos alimentares de adolescentes brasileiros multiétnicos na perspectiva da crononutrição em associação com a duração do sono autorreferida. 


A hipótese é que a qualidade da dieta, a frequência das refeições e a ingestão de nutrientes estão associados à duração do sono.

Portanto, espera-se que adolescentes com curta duração do sono apresentem pior qualidade da dieta, ingestão de nutrientes e comportamentos alimentares irregulares (maior frequência alimentar, períodos mais longos de alimentação, e comer tarde da noite) do que adolescentes com duração de sono adequada. 


Os dados foram coletados pelo inquérito ISA-Capital 2015, um estudo transversal de base populacional com 419 adolescentes de ambos os sexos (12–19 anos) de São Paulo, Brasil. 

Dados demográficos, socioeconômicos, antropométricos e de estilo de vida, incluindo a duração do sono, foram obtidos a partir de um questionário estruturado aplicado por entrevistador. 

Os dados dietéticos foram obtidos por recordatório alimentar de 24 horas (24-HDR) e a qualidade da dieta foi avaliada pelo Índice Brasileiro de Alimentação Saudável – Revisado (IQD-R). 

 

Vamos entender alguns resultados do estudo:

Durações de sono

Durações de sono curtas (<8h) e adequadas (8-10h) foram relatadas por aproximadamente 36% e 64% dos adolescentes brasileiros. 

Os adolescentes privados de sono eram mais velhos e mais escolarizados do que os adolescentes com duração de sono adequada e tinham porcentagens mais altas de emprego adesão às recomendações de atividades físicas, consumo de álcool e tabagismo do que os não privados de sono. 


Qualidade da dieta

Adolescentes com duração de sono adequada apresentaram maior pontuação total do IQD-R do que adolescentes privados de sono. 

Adolescentes com duração de sono adequada apresentaram escores mais altos de frutas totais e inteiras, óleos e sódio, enquanto adolescentes privados de sono apresentaram escores mais altos de vegetais totais e grãos totais e integrais.


Consumo alimentar e duração de sono

Adolescentes com curta duração do sono, em relação aos adolescentes com duração adequada do sono, apresentaram maiores probabilidades de realizar o café da manhã (87%) e lanche da manhã (26%) e menor probabilidade de almoçar (88%) e jantar (71%).

Os adolescentes privados de sono apresentaram a maior contribuição de alguns nutrientes (ou seja, carboidratos disponíveis, açúcar total e adicionado) do lanche da tarde e do lanche total, e tiveram a maior contribuição de energia e nutrientes do lanche da manhã (exceto açúcar total) em comparação com adolescentes com sono adequado. 


Além disso, adolescentes com sono de curta duração apresentaram maior contribuição de gorduras e açúcares no café da manhã do que adolescentes com sono adequado. 


Em contrapartida, adolescentes com duração de sono adequada tiveram maior contribuição energética do almoço e jantar do que adolescentes com sono de curta duração, assim como maior contribuição de gorduras no jantar, lanches totais e noturnos e carboidratos e açúcar no almoço.


Comportamentos alimentares

Não foram observadas diferenças significativas para frequência alimentar, número de ocasiões de alimentação no período matutino e vespertino e número de lanches por dia entre as categorias de duração do sono. 

Adolescentes privados de sono apresentaram maior período de alimentação e intervalo de tempo entre as refeições do que adolescentes com duração de sono adequada.


Considerações Finais

Este estudo transversal representativo foi o primeiro com adolescentes que englobou aspectos da crononutrição para abordar os comportamentos alimentares, qualidade da dieta e a ingestão alimentar de acordo com a duração do sono autorreferida. 


Diferenças na qualidade da dieta, ingestão de nutrientes e comportamentos alimentares foram observadas entre os adolescentes de acordo com as categorias de duração do sono. 


A qualidade da dieta foi pior, ou seja, menor escore total no IQD-R, encontrado entre os adolescentes com sono de curta duração do que seus pares. Embora os adolescentes privados de sono tenham apresentado maior período de alimentação do que seus pares, não foram observadas diferenças na frequência alimentar entre os adolescentes com sono adequado e de curta duração. 

É possível que o maior intervalo de tempo entre as refeições entre os adolescentes privados de sono possa ter contrabalançado os efeitos do maior período de alimentação na frequência alimentar.


Em conclusão, as diferenças alimentares e comportamentais entre adolescentes de acordo com a duração do sono apontam a relevância de se considerar a inter-relação entre sono e dieta como alvo de políticas públicas de saúde e intervenções clínicas, a fim de evitar a interrupção dos ciclos circadianos e consequentes problemas de saúde metabólica

 

Referências bibliográficas

Garcez M, Castro M, César C, Goldbaum M, Fisberg R. Uma perspectiva crononutrição da qualidade da dieta e comportamentos alimentares de adolescentes brasileiros associados à duração do sono. 2021 [cited 2022 May 22]; Available from: https://www.google.com/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=&ved=2ahUKEwjF9476ncH4AhXiRLgEHf0IDo4QFnoECAMQAQ&url=https%3A%2F%2Fpdfs.semanticscholar.org%2Fd606%2F5c11400197be8c4ecb8b2cf886a51ebbae13.pdf&usg=AOvVaw0nVpRTRRgUSTu3jo1JONXg

 


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