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Como a microbiota se relaciona aos padrões dietéticos?

Como a microbiota se relaciona aos padrões dietéticos?

 

Como não consumimos nutrientes de forma isolada, os estudos passam a ter maior complexidade e significância quando abordam um contexto ou padrão alimentar real, e evidências sugerem que a microbiota pode estar relacionada a padrões dietéticos.

 

Sobre essa relação e efeito microbiota x padrões dietéticos, discutiremos aqui o artigo de Christopher L. Gentile e Tiffany L. Weir:

The gut microbiota at the intersection of diet and human health

 

A microbiota intestinal e a insterseção na dieta e na saúde humana 

 

Um exemplo de questionamento que encontramos no artigo é sobre as alterações da microbiota mediante uma dieta rica em gorduras.

Qual seria a causa?

  • a quantidade elevada de gorduras?
  • ou a quantidade reduzida de fibras?
  • é uma consequência da distribuição de macronutrientes?
  • ou os dois juntos de forma paralela?
  • ou, ainda, juntos de forma simbiótica? 

 

Diferentes Padrões Dietéticos e a Microbiota

 

Dieta Cetogênica

 

Caracterizada por um consumo de 5 a 10% de carboidratos, sua origem ocorreu pela busca de uma solução complementar e não farmacológica para a epilepsia infantil refratária.

 

Os seus mecanismos de ação envolvem o fato dessa dieta gerar uma seleção de espécies microbianas que aumentam a produção de ácido g-aminobutírico e glutamato que atuam no hipocampo diminuindo assim as convulsões, sintomas principais da patologia.

Porém, os benefícios gerados pela dieta cetogênica são selecionados por questões de prioridade de efeitos, já que essa seletividade microbiana pode gerar também efeitos não benéficos.

Mas para uma pessoa com convulsões constantes e patologia refratária aos medicamentos existentes, os prós são mais relevantes que os contras.

 

Dieta Paleolítica

 

A base dessa dieta é a realização de escolhas alimentares de acordo com os padrões existentes antes do homem desenvolver a agricultura, o que configura uma dieta hiperproteica e hipoglicídica.

 

Na clínica ela tem sido utilizada no tratamento de pessoas com doença inflamatória intestinal, mas ainda sem resultados contundentes.

Todavia, já existem estudos que mostram que ao se comparar a dieta paleolítica com o padrão alimentar ocidental, um dos resultados é uma maior diversidade bacteriana.

 

Um exemplo citado no artigo foi um estudo realizado com uma tribo de caçadores coletores, cujo estilo de vida é bem semelhante aos paleolíticos, chamados Hazda.

 

Contudo, os resultados foram controversos: por serem uma comunidade que naturalmente possui grande diversidade de bactérias metabolizadoras de MACs (carboidratos acessíveis à microbiota), os quais constituem os carboidratos consumidos em maior proporção na sua dieta.

 

Dietas Vegetarianas e Veganas

 

Os vegetais alimentares compreendem a maior fonte de MACs, e as dietas plant based estão entre as mais indicadas por todos os Guidelines de evidência na área da saúde.

Ainda não se verificou grandes diferenças entre a microbiota de um indivíduo vegetariano e a de um indivíduo onívoro, mas sabe-se que vegetarianos produzem uma maior quantidade de AGCC (Ácidos Graxos de Cadeia Curta).

Porém, os mecanismos do metabolismo microbiano que explicam tal fato ainda não foram elucidados.

 

Dietas plant based, além de conferirem uma grande quantidade de MACs, proporcionam um grande pool de compostos bioativos, como fitoquímicos. 

Como nas plantas eles são glicosilados, sua digestão é dificultada, chegando ao intestino onde exercem efeitos antimicrobianos e anti-nflamatórios.

Ao serem metabolizados pela microbiota, pode-se obter como efeito benéfico o aumento da sua bioatividade ou biodisponibilidade. É o que ocorre, por exemplo, com a isoflavona, que é transformada em equol.

 

Dieta Mediterrânea

 

Pode-se dizer que é um tipo de dieta plant based, pois seu foco é no consumo de alimentos como frutas, legumes, hortaliças, vegetais em geral, e nutrientes como gorduras mono e poli-insaturadas. Assim como quantidades limitadas de carnes, sem necessariamente se enquadrar em faixas fixas de macronutrientes.

 

Já é bem aceito pela ciência que essa dieta é um fator de redução do risco de mortalidade por todas as causas e por DCNT (Doenças Crônicas Não Transmissíveis).

 

Embora existam poucos estudos que verifiquem a sua influência na microbiota, os que existem mostram que ela promove a produção de perfis microbianos favoráveis a saúde.

Entende-se que para seguir uma dieta mediterrânea devemos focar na inclusão de alimentos de origem vegetal e não na exclusão dos de origem animal.

Isso porque a diversidade é o ponto chave para uma microbiota saudável e estável.

 

Dietas direcionadas à microbiota

 

Dentre elas, podemos citar:

  1. Dieta de Carboidratos Específicos (SCD) que restringe carboidratos complexos e açúcar refinado,
  2. Dieta da Síndrome do Intestino e Psicologia (GAPS), que além de excluir alguns alimentos, inclui umas preparações específicas, como caldo de ossos, na promessa de recuperar a mucosa intestinal. 
  3. E a única que possui algumas evidências científicas: a Dieta de baixo FODMAPs utilizada por portadores da Síndrome do Intestino Irritável, mas que a longo prazo se torna difícil de ser mantida.

 

Alimentos fermentados: funcionam ou não??

 

No que se refere a dietas direcionadas à microbiota, um tópico muito popular são os alimentos fermentados.

 

Porém, as quantidades de probióticos produzidos nesses alimentos ou produtos alimentícios, são muito pequenas para chegarem ao intestino e produzirem efeitos benéficos.

 

O único alimento fermentado que apresenta alguma evidência científica são os iogurtes. Mas, ainda assim, não há consenso se os benefícios conquistados são decorrentes dos probióticos presentes ou de alguns nutrientes do alimento, que por sua vez, colaboram para a produção de metabólitos microbianos.

 

Finalizando, considerando o artigo discutido, a microbiota intestinal já foi identificada como um fator que influencia diretamente no risco de doenças e na resposta alimentar.

Um fator observado em estudos com ratos, é que é mais difícil influenciar uma recolonização de uma microbiota intestinal por intervenção dietética, após um período de dieta relacionada a baixa diversidade microbiana.

E outro fator, que ainda não se sabe ao certo, é se a porção modificável da microbiota é suficiente para gerar as mudanças fisiológicas requeridas.

 

O termo Disbiose, que pode ser entendido como uma alteração da composição da microbiota intestinal associada a patologias ou desordens metabólicas, permanece como determinação comparativa e não como definição padrão. 

Afinal cada indivíduo tem a sua história de vida, sua alimentação, seu estilo de vida, sua genética e epigenética.

 

O maior estudo, até então, que envolve microbiota é o Projeto Microbioma Humano Integrado, que visa conhecer padrões de microbiota de uma corte em vários estágios da vida, durante o período saudável e início de doenças dos indivíduos.

Atualmente, estuda-se a união de dados proteolômicos e metabolômicos a avaliações de microbiota baseados no DNA.

Além de que cada vez mais os algoritmos e os processos que envolvem inteligência artificial evoluem, já conseguindo prever ganho de peso pós dieta de acordo com o perfil microbiano do paciente.

 

Enfim, é possível enxergar o quanto a compreensão de como a microbiota e a dieta podem se inter-relacionar e gerar efeitos na saúde dos indivíduos permitirá condutas mais assertivas.

 

Vale sempre destacar que na clínica é necessário o bom senso, e o foco no seu paciente como um ser único e individual.

 

FONTE:

GENTILE, Christopher L.; WEIR, Tiffany L.. The gut microbiota at the intersection of diet and human health. Science, [S.L.], v. 362, n. 6416, p. 776-780, 15 nov. 2018. American Association for the Advancement of Science (AAAS). http://dx.doi.org/10.1126/science.aau5812. Disponível em: https://science.sciencemag.org/content/sci/362/6416/776.full.pdf. Acesso em: 20 jul. 2021.

 

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