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A microbiota intestinal, a dieta e a saúde humana

A microbiota intestinal, a dieta e a saúde humana

 

"A dieta é um componente chave da relação entre humanos e seus residentes microbianos”. Essa frase já diz muito sobre como discorrerá o artigo de Gentile e Weir: A microbiota intestinal na interseção da dieta e da saúde humana.

 

O artigo “The gut microbiota at the intersection of diet and human health”, foi publicado em 2018 na Science.

 

Nosso intestino possui cerca de trilhões de micróbios, de centenas de espécies diferentes, assim formando a nossa Microbiota Intestinal.

A variedade é tão grande, que ainda não foi possível caracterizar padrões de microbiota saudável e não saudável.

Os micróbios intestinais se alimentam do que nós nos alimentamos. Mais precisamente, de nutrientes que já digerimos parcialmente.

A partir destes nutrientes produzem metabólitos que geram ações no nosso organismo, como por exemplo: 

  • na nossa absorção,
  • no metabolismo e
  • no armazenamento de nutrientes.

E como é dito, já bem firmado na ciência, a dieta tem o poder de gerar modificações transitórias na microbiota de 24 a 48h após ser aplicada, e independente da composição corporal do indivíduo.

 

Intersecção da microbiota com os macro e micronutrientes, e aditivos alimentares com a saúde humana

 

Falaremos agora sobre intersecção da microbiota com os macro e micronutrientes, e aditivos alimentares com a saúde humana.

 

Carboidratos

Os carboidratos são os macronutrientes de ação mais direta nos micróbios intestinais, pois são a sua fonte primária de energia.

Comumente, esses carboidratos, utilizados pelos micróbios como alimento, são os que as nossas enzimas não conseguem digerir, e são chamados de fibras.

Porém, os autores pontuam no artigo que fazer essa associação entre alimento da microbiota com fibras com carboidratos não digeríveis, acaba se tornando uma explicação simplista. 

 

Por exemplo, a celulose é um carboidrato não digerível, mas não é utilizada pela microbiota como alimento. E o amido resistente, que não se enquadra na classificação das fibras, é parcialmente digerido pelo nosso organismo e ainda assim serve de alimentos para a microbiota.

 

Diante disso, é sugerido na literatura o termo Carboidrato Acessível a Microbiota (MAC).

Em estudos com ratos, foi visto que uma dieta pobre em MACs pode comprometer inclusive gerações futuras no que se refere a diversidade da colonização intestinal. 

Mas não de todas as espécies microbianas, o que de início pode ser entendido como algo bom. Porém, viu-se que algumas dessas espécies se alimentam também das glicoproteínas que compõem o muco intestinal.

E, se essa “refeição” permanece sendo praticada por muito tempo, partes do intestino perdem a sua proteção e ficam expostas a agressões mecânicas e químicas.

Outra má consequência de uma dieta pobre em MACs é que a microbiota no seu processo de “digestão” utiliza fermentação, que gera como produtos finais ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), os quais de forma mutualista, geram efeitos benéficos ao organismo do hospedeiro.

Efeitos benéficos dos AGCC:

  1. Uma “reciclagem” da energia, que estaria perdida com os carboidratos não digeridos;
  2. Modulação do metabolismo energético glicídico e lipídico, através do sistema nervoso central e receptores acoplados a proteína G;
  3. Ações epigenéticas, influenciando na expressão de genes e
  4. Ações no sistema imunológico, suprimindo inflamações.

 

Gorduras

Assim como os carboidratos, os lipídeos, dependendo do seu tipo, também conferem ações colaborativas ou maléficas a microbiota, e por consequência ao organismo do hospedeiro.

E a quantidade também influencia nessas ações.

Por exemplo, dietas com quantidades elevadas de gordura geram translocação de bactérias que eram para continuar dentro do intestino (o que na parasitologia, chama-se de externo ao organismo), para o sangue.

O maior problema é que essa molécula se liga aos receptores Toll-like 4, e exerce uma atividade inflamatória intensa, sendo atualmente relacionada a doenças cardiovasculares e metabólicas.

Foi visto também que a microbiota possui atuação na composição, no volume e na sinalização do ácido biliar, a partir dos receptores farnesóide X (FXR) e do receptor 1 de ácido biliar acoplado à proteína G (TGR5).

Fato esse que é de grande valia, pois a ativação desses receptores produz efeitos no metabolismo da glicose e na imunidade inata.

 

Proteínas

Apesar da maioria dos AGCC produzidos virem da fermentação dos MACs, parte deles, assim como ácidos graxos de cadeia ramificada, indóis, fenóis, amônia e aminas, podem vir da metabolização microbiana dos aminoácidos.

E, assim como há com os lipídeos, teremos efeitos maléficos ou benéficos.

Por exemplo, fenóis, indóis e aminas quando se ligam ao óxido nítrico formam os compostos N-nitroso, genotóxicos que atualmente são associados a cânceres gastrointestinais.

Já os metabólitos microbianos do triptofano, ácido indolepropiônico e o indol-3-acetato, atuam na homeostase intestinal, na proteção da colite experimental (em modelos animais) e redução da inflamação dos hepatócitos e macrófagos.

Outro fator muito importante quando falamos de proteínas dietéticas e microbiota, é a sua fonte: se é animal ou vegetal.

Proteínas animais possuem em abundância o aminoácido L-carnitina, o que não ocorre em proteínas vegetais. E quando fermentado pelas bactérias intestinais produzem óxido de trimetilamina (TMAO).

O TMAO é um importante preditor de doenças cardiovasculares e doenças hepáticas gordurosas, aumentando, dentre vários fatores, a agregação plaquetária e a formação de trombos.

 

Micronutrientes

A síntese e metabolização dos micronutrientes também são influenciadas pela nossa microbiota intestinal. 

E existe uma atividade de mão dupla, por exemplo: 

  • várias espécies de bactérias podem sintetizar as vitaminas do complexo B
  • assim como a colonização pode ser beneficiada por vitaminas como a D e a B2 que, respectivamente, regula a inflamação e exerce ação antioxidante.

 

Quanto aos minerais, o estudo pontua o zinco: a sua deficiência pode contribuir para um aumento de colonização patogênica, e então se tornar um grande fator de risco para diarreia infantil.

 

Aditivos alimentares

Até então, a relação dos aditivos alimentares e microbiota foi pouco estudada.

Porém, os estudos que existem sugerem efeitos prejudiciais à colonização bacteriana, e por consequência, malefícios a saúde humana.

Há estudos que correlacionaram o consumo de polissorbato-80 e carboximetilcelulose, dois emulsionantes encontrados em alimentos (como produtos sem glúten e com baixo teor de gordura, sorvetes, vinhos e picles), a uma maior indução a obesidade, inflamação intestinal e disfunção metabólica.

Os adoçantes não nutritivos também têm sido associados a disfunções da microbiota, gerando efeitos como intolerância a glicose

 

Mas, ainda é necessário que sejam realizados estudos clínicos em humanos para as devidas comprovações da interferência da microbiota intestinal na saúde humana.

 

Fonte:

GENTILE, Christopher L.; WEIR, Tiffany L.. The gut microbiota at the intersection of diet and human health. Science, [S.L.], v. 362, n. 6416, p. 776-780, 15 nov. 2018. American Association for the Advancement of Science (AAAS). http://dx.doi.org/10.1126/science.aau5812. Disponível em: https://science.sciencemag.org/content/sci/362/6416/776.full.pdf. Acesso em: 20 jul. 2021.

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